
O segundo turno de 25 de outubro de 2026 terminou com uma virada. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro ficou em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Três semanas depois, Lula venceu por 3,58 pontos percentuais e se tornou o primeiro presidente eleito quatro vezes no Brasil (2002, 2006, 2022 e 2026).
Neste artigo, usamos os arquivos oficiais de resultado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para mostrar de onde veio a virada, como cada estado e região votou, o que mudou no comparecimento e o que se sabe sobre a contestação do resultado.
Do 1º para o 2º turno: a virada em números
No primeiro turno, Flávio teve 2,2 milhões de votos a mais que Lula. Os outros dez candidatos somaram 9,3 milhões de votos. Os mais votados entre eles foram Augusto Cury (Avante, 2,89%), Renan Santos (Missão, 2,24%) e Ronaldo Caiado (PSD, 2,18%).
No segundo turno, Lula ganhou 10,4 milhões de votos em relação ao primeiro. Flávio ganhou 3,7 milhões.
Fonte: TSE, resultados oficiais da eleição presidencial de 2026
De onde vieram esses 14,1 milhões de votos a mais para os dois finalistas? A conta fecha com duas fontes:
- 9,3 milhões de votos que, no primeiro turno, foram para os outros candidatos;
- 4,8 milhões de votos válidos a mais no segundo turno, porque 2,96 milhões de eleitores que tinham faltado voltaram às urnas e os votos brancos e nulos caíram de 5,98 milhões para 4,15 milhões.
O maior crescimento de Lula em números absolutos foi em São Paulo, com 2,6 milhões de votos a mais. Em seguida, vieram Minas Gerais (+1,16 milhão), Rio de Janeiro (+872 mil), Bahia (+820 mil) e Pernambuco (+564 mil).
O mapa do 2º turno: cada estado
Lula venceu em 13 estados, e Flávio, em 13 estados e no Distrito Federal. Mesmo vencendo em menos unidades da Federação, Lula fez mais votos no total, porque sua vantagem foi muito grande em estados populosos do Nordeste.
Fonte: TSE, resultados oficiais do 2º turno da eleição presidencial de 2026
- A maior vitória de Lula foi no Piauí (75,9%), seguido por Bahia (71,3%) e Maranhão (69,5%).
- A maior vitória de Flávio foi em Roraima (72,5%), seguida por Rondônia (69,6%) e Santa Catarina (69,4%).
- As disputas mais apertadas foram em Minas Gerais (Lula com 50,4%), Tocantins (Flávio com 51,4%) e Amapá (Lula com 52,9%).
- Nos três maiores colégios eleitorais, Flávio venceu em São Paulo (53,8%) e no Rio de Janeiro (53,1%), e Lula, em Minas Gerais.
As regiões: Nordeste decisivo e um empate no Norte
Fonte: TSE, resultados oficiais do 2º turno. Soma dos votos dos estados de cada região.
- Nordeste: Lula teve 69,4% dos votos válidos e uma vantagem de 13,65 milhões de votos. Essa diferença, sozinha, é maior do que a vantagem de Flávio nas outras três regiões em que ele venceu somadas (9,25 milhões).
- Sudeste: Flávio venceu com 52,8% e vantagem de 2,81 milhões de votos.
- Sul: foi a região mais favorável a Flávio, com 62,6% e vantagem de 4,58 milhões.
- Centro-Oeste: Flávio teve 60,0% e vantagem de 1,87 milhão.
- Norte: praticamente um empate. Lula teve 5.024.626 votos, e Flávio, 5.023.547. A diferença foi de apenas 1.079 votos em uma região com mais de 10 milhões de votos válidos.
Os eleitores que votaram no exterior também deram vitória a Lula, com 53,9% dos votos válidos (200 mil contra 171 mil). No exterior, a abstenção foi de 58,4%, bem acima da média nacional, porque o voto fora do país é mais difícil e a ausência pode ser justificada com mais facilidade.
Minas Gerais: o único estado que virou
Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, com 16,4 milhões de eleitores, foi o único estado em que o líder mudou entre os dois turnos.
| Minas Gerais | Lula | Flávio Bolsonaro | Diferença |
|---|---|---|---|
| 1º turno (votos) | 5.188.936 (43,33%) | 5.777.548 (48,24%) | Flávio +588.612 |
| 2º turno (votos) | 6.351.099 (50,43%) | 6.241.786 (49,57%) | Lula +109.313 |
| Crescimento | +1.162.163 | +464.238 |
No primeiro turno, Flávio terminou quase 589 mil votos à frente em Minas. No segundo, Lula ganhou 2,5 vezes mais votos que o adversário no estado e venceu por 109 mil votos. Minas manteve a fama de “termômetro” das eleições: de novo, quem venceu no estado venceu no país.
Comparecimento: mais gente votou no 2º turno
A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno, a maior em uma eleição geral desde 1998, para 19,22% no segundo. Dos 158,7 milhões de eleitores aptos, 128,2 milhões foram às urnas (80,78%), quase 3 milhões a mais do que em 4 de outubro.
A queda da abstenção, porém, não foi geral. Em nove estados, a abstenção subiu no segundo turno, todos no Norte ou no Nordeste. Os maiores aumentos foram no Amapá (de 17,4% para 25,5%), em Roraima (de 17,1% para 23,2%) e no Acre (de 20,4% para 26,1%). Nesses três estados, Flávio também perdeu votos entre os turnos. Já os estados com maior queda da abstenção foram Bahia (-3,3 pontos), Pernambuco (-3,0) e São Paulo (-2,7).
O horário estendido e a contestação do resultado
No dia da votação, houve relatos de falta de transporte público para levar eleitores às seções em alguns municípios. Depois de pedidos dos dois lados, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou que as seções ainda abertas às 17h continuassem recebendo eleitores até as 19h. Seções já encerradas não puderam ser reabertas.
Segundo dados do TSE divulgados pela CNN Brasil, 34.330 eleitores votaram depois das 17h, e a maioria deles (29.001) entre 17h e 17h05, o que indica que já estavam na fila no horário normal de encerramento. Esse número equivale a 0,8% da diferença entre os dois candidatos. Mesmo que todos esses eleitores tivessem votado no mesmo candidato, o resultado não mudaria.
Na noite de domingo, Flávio Bolsonaro disse que não reconhecia o resultado e que pediria a anulação da eleição, argumentando que a decisão de Zanin quebrou a igualdade entre eleitores de estados diferentes. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que a prorrogação não alterou o resultado. Na segunda-feira (26), o PL divulgou nota reconhecendo “o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral”. Flávio desistiu do pedido de anulação e passou a preparar uma ação de investigação judicial eleitoral (Aije) contra a chapa Lula-Alckmin, por suposto abuso de poder político e econômico. Esse tipo de ação é analisado pela Justiça Eleitoral, e a sua apresentação não significa que tenham sido encontradas irregularidades.
Como 2026 se compara com 2022
| 2º turno | 2022 | 2026 |
|---|---|---|
| Votos do vencedor | 60,3 milhões (Lula, 50,90%) | 64,3 milhões (Lula, 51,79%) |
| Votos do segundo colocado | 58,2 milhões (Jair Bolsonaro, 49,10%) | 59,8 milhões (Flávio Bolsonaro, 48,21%) |
| Diferença | 2,1 milhões (1,8 ponto) | 4,4 milhões (3,6 pontos) |
| Abstenção | 20,59% | 19,22% |
| Quem liderou o 1º turno | Lula | Flávio Bolsonaro |
A disputa de 2026 repetiu o confronto entre Lula e a família Bolsonaro, mas com diferenças importantes. A vantagem final de Lula foi o dobro da de 2022, a abstenção foi menor, e Lula chegou ao segundo turno atrás, o que não tinha acontecido em 2022. Com 64,26 milhões de votos, Lula superou a própria marca de 2022 e teve a maior votação já recebida por um candidato a presidente no Brasil.
Os governadores eleitos no 2º turno
Além da Presidência, seis estados tiveram segundo turno para governador:
| Estado | Eleito(a) | Votos válidos | Derrotado(a) |
|---|---|---|---|
| Acre | Mailza Assis (PP) | 66,21% | Alan Rick (Republicanos) |
| Amazonas | Omar Aziz (PSD) | 61,42% | Professora Maria do Carmo (PL) |
| Distrito Federal | Celina Leão (PP) | 57,18% | Leandro Grass (PT) |
| Espírito Santo | Lorenzo Pazolini (Republicanos) | 52,17% | Ricardo Ferraço (MDB) |
| Rio Grande do Norte | Cadu de Lula (PT) | 50,77% | Allyson (União) |
| Tocantins | Vicentinho Júnior (PSDB) | 64,52% | Professora Dorinha (União) |
Resultado do 2º turno em todos os estados
| Estado | Lula | Flávio | Vencedor | Abstenção 1º turno | Abstenção 2º turno |
|---|---|---|---|---|---|
| Acre (AC) | 33,43% | 66,57% | Flávio | 20,43% | 26,08% |
| Alagoas (AL) | 60,77% | 39,23% | Lula | 20,63% | 20,08% |
| Amapá (AP) | 52,88% | 47,12% | Lula | 17,41% | 25,47% |
| Amazonas (AM) | 54,02% | 45,98% | Lula | 20,16% | 21,67% |
| Bahia (BA) | 71,31% | 28,69% | Lula | 19,97% | 16,71% |
| Ceará (CE) | 68,93% | 31,07% | Lula | 15,52% | 13,89% |
| Distrito Federal (DF) | 45,72% | 54,28% | Flávio | 18,90% | 17,30% |
| Espírito Santo (ES) | 43,63% | 56,37% | Flávio | 21,37% | 19,47% |
| Goiás (GO) | 40,34% | 59,66% | Flávio | 21,83% | 20,34% |
| Maranhão (MA) | 69,54% | 30,46% | Lula | 19,73% | 20,36% |
| Mato Grosso (MT) | 33,94% | 66,06% | Flávio | 22,20% | 20,95% |
| Mato Grosso do Sul (MS) | 40,40% | 59,60% | Flávio | 23,87% | 21,24% |
| Minas Gerais (MG) | 50,43% | 49,57% | Lula | 22,81% | 20,33% |
| Pará (PA) | 55,02% | 44,98% | Lula | 19,10% | 20,32% |
| Paraíba (PB) | 67,46% | 32,54% | Lula | 17,38% | 15,54% |
| Paraná (PR) | 37,42% | 62,58% | Flávio | 20,57% | 18,04% |
| Pernambuco (PE) | 69,20% | 30,80% | Lula | 18,17% | 15,18% |
| Piauí (PI) | 75,88% | 24,12% | Lula | 17,15% | 17,19% |
| Rio de Janeiro (RJ) | 46,90% | 53,10% | Flávio | 23,32% | 21,62% |
| Rio Grande do Norte (RN) | 65,72% | 34,28% | Lula | 18,38% | 16,06% |
| Rio Grande do Sul (RS) | 42,16% | 57,84% | Flávio | 21,35% | 19,16% |
| Rondônia (RO) | 30,39% | 69,61% | Flávio | 21,71% | 21,92% |
| Roraima (RR) | 27,54% | 72,46% | Flávio | 17,12% | 23,15% |
| Santa Catarina (SC) | 30,58% | 69,42% | Flávio | 18,95% | 16,96% |
| São Paulo (SP) | 46,15% | 53,85% | Flávio | 22,54% | 19,81% |
| Sergipe (SE) | 69,53% | 30,47% | Lula | 17,30% | 15,71% |
| Tocantins (TO) | 48,63% | 51,37% | Flávio | 18,34% | 19,23% |
| Brasil | 51,79% | 48,21% | Lula | 21,08% | 19,22% |
Percentuais de Lula e Flávio calculados sobre os votos válidos (sem brancos e nulos). Abstenção sobre o total de eleitores aptos de cada estado.
O que vem agora
Pela Emenda Constitucional nº 111, de 2021, a posse presidencial deixou de ser em 1º de janeiro. Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) tomam posse em 5 de janeiro de 2027, para um mandato de quatro anos. Lula, nascido em 6 de outubro de 1945, terá 81 anos na posse e voltará a ser o presidente mais velho a assumir o cargo, superando a marca que ele mesmo estabeleceu em 2023.
Conclusão
A eleição de 2026 foi decidida por uma diferença maior que a de 2022, mas com um caminho bem diferente: Lula começou o segundo turno atrás, cresceu em todos os estados e venceu com a força do Nordeste e a virada em Minas Gerais. Os dados também mostram um país dividido de forma clara por região, com o Nordeste de um lado, o Sul e o Centro-Oeste do outro, e o Norte empatado por pouco mais de mil votos. Os números de cada estado podem ser conferidos no site de resultados do TSE, listado nas fontes abaixo.
Fontes dos dados
- TSE — Resultados oficiais da eleição presidencial de 2026 (1º e 2º turnos, por estado)
- TSE — Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno
- Agência Brasil — Lula cresce em número de votos em todos os estados; Flávio recuou em 6
- O Tempo — Minas foi o único estado que Lula virou contra Flávio Bolsonaro
- CNN Brasil — 34 mil eleitores votaram após as 17h no 2º turno, mostram dados do TSE
- Poder360 — Flávio não aceita derrota e diz que pedirá a anulação do resultado
- Banda B — PL reconhece vitória de Lula e Flávio Bolsonaro recua de tentar anular o resultado
- CNN Brasil — Resultado do 2º turno de 2022 (60,3 milhões de votos para Lula)
- Jornal do Brasil — TSE conclui totalização do 2º turno de 2022 (abstenção de 20,59%)
- Planalto — Emenda Constitucional nº 111/2021 (posse presidencial em 5 de janeiro)
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