
Água tratada, esgoto e coleta de lixo parecem serviços básicos, mas ainda não chegam a uma parte grande da população brasileira. A falta de saneamento afeta diretamente a saúde, principalmente das crianças, e a qualidade de rios e praias. Neste artigo, usamos os dados do Censo 2022 para mostrar quantas pessoas têm acesso a cada serviço e como a situação varia entre os estados.
Esgoto: o maior atraso
O esgoto é o serviço mais atrasado. Veja como os brasileiros se dividem pelo destino do esgoto de suas casas:
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2022 (SIDRA tabela 7555)
- 62,5% da população (126 milhões de pessoas) está ligada à rede geral de esgoto ou a fossas conectadas a ela.
- 13,2% usa fossa séptica não ligada à rede, uma solução individual que, quando bem construída e mantida, é considerada adequada em áreas sem rede.
- 19,4%, cerca de 39 milhões de pessoas, usa fossa rudimentar ou buraco, que contamina o solo e a água subterrânea.
- 4,1 milhões de pessoas despejam o esgoto diretamente em rios, lagos ou no mar, e quase 3 milhões em valas a céu aberto.
- 1,2 milhão de pessoas vivem em casas sem banheiro nem sanitário.
A desigualdade entre os estados
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2022 (SIDRA tabela 7555)
Em São Paulo, 90,8% da população tem esgoto ligado à rede. No Amapá, só 10,9%, e em Rondônia, 13,3%. Nos estados do Norte e de parte do Nordeste, a solução mais comum ainda é a fossa rudimentar: ela atende 58,9% da população de Rondônia, 48,3% do Maranhão e 46,7% do Tocantins.
Água: 27 milhões sem ligação à rede
A situação da água é melhor que a do esgoto, mas ainda incompleta. Em 2022, 82,9% dos brasileiros tinham a rede geral como principal fonte de água. Outros 3,7% eram ligados à rede, mas usavam principalmente outra fonte, como poços. E 13,4%, cerca de 27 milhões de pessoas, não tinham nenhuma ligação com a rede geral, dependendo de poços, nascentes, cisternas de água da chuva, carros-pipa ou rios.
Os piores índices estão na região Norte: no Amapá (43,7%), em Rondônia (45,3%) e no Pará (48,0%), menos da metade da população usa a rede geral como principal fonte de água.
Lixo: 16 milhões ainda queimam o lixo
A coleta de lixo é o serviço mais difundido: chega a 90,9% da população, por coleta na porta de casa ou em caçambas do serviço de limpeza. Mas cerca de 16 milhões de pessoas ainda queimam o lixo na propriedade, prática que polui o ar e causa riscos à saúde. A queima é mais comum no Maranhão (27,3% da população), no Piauí (24,5%) e no Pará (22,4%).
Os três serviços em cada estado
| Estado | Água da rede geral | Esgoto ligado à rede | Lixo coletado |
|---|---|---|---|
| Acre (AC) | 51,6% | 34,0% | 75,9% |
| Alagoas (AL) | 67,7% | 33,1% | 86,7% |
| Amapá (AP) | 43,7% | 10,9% | 90,4% |
| Amazonas (AM) | 64,7% | 29,9% | 79,6% |
| Bahia (BA) | 82,7% | 52,2% | 82,7% |
| Ceará (CE) | 78,8% | 40,1% | 85,1% |
| Distrito Federal (DF) | 92,8% | 84,7% | 98,8% |
| Espírito Santo (ES) | 83,7% | 74,2% | 92,8% |
| Goiás (GO) | 84,4% | 52,2% | 94,6% |
| Maranhão (MA) | 65,3% | 16,5% | 69,8% |
| Mato Grosso (MT) | 80,5% | 33,0% | 88,3% |
| Mato Grosso do Sul (MS) | 87,0% | 49,0% | 89,7% |
| Minas Gerais (MG) | 87,6% | 80,1% | 92,5% |
| Pará (PA) | 48,0% | 18,6% | 75,9% |
| Paraíba (PB) | 74,0% | 47,7% | 84,1% |
| Paraná (PR) | 88,7% | 69,6% | 94,3% |
| Pernambuco (PE) | 70,6% | 52,3% | 84,7% |
| Piauí (PI) | 76,9% | 18,3% | 73,4% |
| Rio de Janeiro (RJ) | 84,1% | 83,8% | 98,0% |
| Rio Grande do Norte (RN) | 84,6% | 31,5% | 90,6% |
| Rio Grande do Sul (RS) | 86,2% | 62,4% | 95,3% |
| Rondônia (RO) | 45,3% | 13,3% | 79,2% |
| Roraima (RR) | 80,1% | 42,1% | 77,7% |
| Santa Catarina (SC) | 83,8% | 53,5% | 96,7% |
| São Paulo (SP) | 95,6% | 90,8% | 99,0% |
| Sergipe (SE) | 85,3% | 53,6% | 91,5% |
| Tocantins (TO) | 81,8% | 28,4% | 85,0% |
| Brasil | 82,9% | 62,5% | 90,9% |
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2022 (SIDRA tabelas 6894, 7555 e 9541). Percentual da população em cada situação. “Água da rede geral”: rede geral como principal forma de abastecimento. “Esgoto ligado à rede”: rede geral, rede pluvial ou fossa ligada à rede.
As metas para 2033
O Novo Marco Legal do Saneamento, de 2020, fixou metas para universalizar os serviços até 31 de dezembro de 2033: 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Pelos dados do Censo, o país precisaria levar a rede de água a mais 16 pontos percentuais da população e a rede de esgoto a cerca de 28 pontos a mais, em pouco mais de uma década.
Conclusão
O Censo 2022 mostra um país dividido: em São Paulo, no Distrito Federal e no Rio de Janeiro, mais de 80% da população tem esgoto ligado à rede; no Norte e em parte do Nordeste, a maioria ainda depende de fossas rudimentares, poços e da queima do lixo. O saneamento é o serviço básico mais atrasado do Brasil, e atingir as metas de 2033 exigirá um ritmo de investimento muito maior nas regiões mais carentes.
Fontes dos dados
- IBGE/SIDRA — Censo 2022: moradores por tipo de esgotamento sanitário (tabela 7555)
- IBGE/SIDRA — Censo 2022: moradores por forma de abastecimento de água (tabela 6894)
- IBGE/SIDRA — Censo 2022: moradores por destino do lixo (tabela 9541)
- Lei nº 14.026/2020 — Novo Marco Legal do Saneamento Básico
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