
O Brasil costuma ser citado como exemplo de eletricidade limpa, e os números confirmam: poucas grandes economias chegam perto. Mas a matriz elétrica brasileira está mudando rápido. A dependência das hidrelétricas diminui, a energia solar e a eólica crescem, e anos de pouca chuva ainda obrigam o país a ligar usinas térmicas a gás. Vamos aos dados.
Renovável, limpa: qual a diferença?
Antes de comparar países, vale separar dois conceitos:
- Fontes renováveis se regeneram naturalmente: água (hidrelétricas), vento, sol e biomassa, como o bagaço de cana.
- Fontes limpas ou de baixo carbono incluem as renováveis e também a energia nuclear, que não é renovável mas quase não emite gases de efeito estufa.
No Brasil, a nuclear (usinas de Angra) tem participação pequena, então os dois números ficam próximos. Em países como os Estados Unidos e a França, a diferença é grande.
Brasil x outras grandes economias
O gráfico compara a participação de fontes limpas na geração de eletricidade em 2025, usando a mesma metodologia para todos os países:
Fonte: Ember, Global Electricity Review 2026
Com 89% de eletricidade limpa, o Brasil tem mais que o dobro da média mundial (43%). A Alemanha, que investe há duas décadas em energia eólica e solar, chega a 59%. Estados Unidos e China ficam perto da média global, e a Índia, ainda muito dependente do carvão, a 27%.
A vantagem brasileira tem nome: hidrelétricas
O motivo da matriz limpa é geográfico. O Brasil tem grandes rios e investiu por décadas em usinas como Itaipu, Belo Monte e Tucuruí. Em 2025, as hidrelétricas responderam por cerca de 52% da geração, segundo a Ember. Em 2024, pelo BEN, eram 56%.
Essa dependência tem um lado frágil: quando chove pouco, os reservatórios baixam e o sistema precisa acionar usinas térmicas, mais caras e poluentes. Foi o que aconteceu em 2025. A geração hidrelétrica caiu 4,8%, a geração térmica subiu 12,3% e a geração a gás natural aumentou 22,7%. Resultado: a fatia renovável recuou de 88,2% para 86,8%.
Solar e eólica: as fontes que mais crescem
Enquanto a participação hidrelétrica diminui, vento e sol ocupam espaço. Juntas, as duas fontes passaram de 24% da eletricidade em 2024 para 26,4% em 2025, acima da média mundial de 17% medida pela Ember.
Fonte: EPE, Balanço Energético Nacional 2026
A energia eólica se concentra no Nordeste, onde os ventos são fortes e constantes, e gerou 116,5 TWh em 2025. A energia solar gerou 88,1 TWh e já soma 64,8 GW de potência instalada, mais que a eólica (34,7 GW). A solar produz menos por gigawatt instalado porque só gera durante o dia.
O papel da geração distribuída
Boa parte do crescimento solar veio da geração distribuída: pequenos sistemas instalados em telhados de casas, comércios e propriedades rurais, que abatem a conta de luz de quem os instala. Segundo a EPE, a micro e minigeração distribuída respondeu por cerca de 7% da eletricidade produzida no país em 2025.
O ritmo, porém, diminuiu. Dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) mostram que o país adicionou 15 GW de potência solar em 2024 e 10,6 GW em 2025, uma queda de 29%. Do total de 2025, 7,8 GW vieram da geração distribuída e 2,8 GW de grandes usinas. Entre os motivos apontados pelo setor estão as novas regras de compensação, que reduziram a vantagem financeira de novos sistemas, os juros altos e os cortes de geração impostos a usinas solares e eólicas em horários de excesso de oferta na rede.
Eletricidade não é toda a energia
Um cuidado importante: a matriz elétrica é só uma parte da matriz energética, que inclui também combustíveis de carros, caminhões e indústrias. Na matriz energética como um todo, as fontes renováveis representaram 49,5% em 2025, segundo o BEN. Ainda é um índice alto para padrões mundiais, puxado pelo etanol e pela biomassa, mas mostra que a eletricidade é a parte mais limpa da energia brasileira.
Conclusão
O Brasil tem uma das eletricidades mais limpas entre as grandes economias, graças às hidrelétricas e, cada vez mais, ao sol e ao vento. Os dados de 2025 mostram os dois lados dessa história: solar e eólica bateram recordes de participação, mas a seca reduziu a geração hidrelétrica e aumentou o uso de gás. Manter a matriz limpa vai depender de investir em transmissão, armazenamento e na diversificação das fontes.
Fontes dos dados
- Ember — Brasil: dados de eletricidade 2025
- Ember — Global Electricity Review 2026
- Ember — páginas de Alemanha, Estados Unidos, China e Índia
- EPE — Balanço Energético Nacional (BEN)
- eixos — Matriz elétrica fechou 2024 com 88% de participação renovável (BEN 2025)
- LexLegal — Matriz elétrica brasileira é 86,8% renovável (BEN 2026, ano-base 2025)
- TaiyangNews — dados da ABSOLAR sobre a potência solar adicionada em 2025
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